terça-feira, 23 de agosto de 2016

As árvores dos Amantes / Lovers Trees

O postal é do final da década de 1980 e mostra uma parte dos jardins do templo de Pou Chai/Kun Iam Tong (Av. Coronel Mesquita) também conhecidos pela assinatura do primeiro tratado sino-americano.
Na imagem estão umas “árvores entrelaçadas” que segundo reza a lenda ficaram assim tendo por base a história de dois amantes apaixonados mas cujas diferenças sociais e de antecedentes familiares tornavam impossível a união e eles suicidaram-se. Ainda de acordo com a lenda os dois foram enterrados no jardim do templo e depois disso nasceram duas árvores - to tipo pagode - que no crescimento se começaram a entrelaçar.
A este propósito sugiro a leitura do conto da autoria de Alice Vieira intitulado "As Árvores que ninguém separa" e integrado na obra "Contos e Lendas de Macau".
Em 1992 estas árvores foram atingidas por uma praga e morreram.

domingo, 21 de agosto de 2016

Cem patacas de "Julio" de 1919


Exemplar da emissão de 1919. Terão sido emitidas 48.000 notas no total, sendo que destas 21.725 foram enviadas para Timor em 1946. Esta emissão foi colocada em circulação em 1920 e seria retirada apenas em 1948. A título de curiosidade refira-se que só eram válidas depois de receberem a assinatura do gerente do BNU em Macau, um processo que era feito manualmente. Para os amantes da numismática este exemplar tem ainda a particularidade de apresentar um erro de impressão na data: "Julio" em vez de Julho.
Dimensões: 183 x 116 mm 


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Cédulas identificação policial

Decreto-Lei n.º 40/81/M de 11 de Novembro
Artigo 1.º - Cédula de identificação
Enquanto não for remodelado o actual sistema territorial de identificação, qualquer indivíduo de nacionalidade chinesa residente no Território poderá obter uma cédula de identificação policial emitida pelo Corpo de Polícia de Segurança Pública de Macau.
Artigo 2.º - Valor probatório
A cédula de identificação policial, adiante apenas designada por cédula, constitui documento bastante para provar a identidade do seu titular perante quaisquer autoridades, repartições públicas ou entidades particulares.Fica revogada a Portaria n.º 6 740, de 15 de Abril de 1961, bem como os diplomas que posteriormente a alteraram.


As cédulas de identificação policial (CIP) começaram a ser passadas para os cidadãos chineses que vinham da RPC, a "salto", sem terem qualquer documento consigo. Lages Ribeiro, na época ao serviço da PSP em Macau explica que "a CIP era o único documento oficial que passavam a possuir. Os elementos eram os que eles preenchiam num impresso que fornecíamos. Além disso eram fotografados e colhíamos as suas impressões digitais. Hong Kong só passava autorização para desembarcar na colónia desde que possuíssem a CIP há mais de um ano."
Em memória do general Lages Ribeiro que morreu esta semana aos 82 anos. Em breve um novo post e uma entrevista que me concedeu há uns tempos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Jetfoil "Terceira"

Tal como os antecessores, os hydrofoils, também os jetfoils que serviam a carreira marítima entre Macau e Hong Kong, foram baptizados com nomes portugueses, nomeadamente das ilhas dos arquipélagos da Madeira e dos Açores.
Originário da Jetlink Ferries Ltd com o nome Normandy Princess, o Terceira entrou ao serviço da Far East Hydrofoil (hojeTurboJet Hong Kong) em 1980.
Um jetfoil cruza-se com um hydrofoil na chegada a Macau

domingo, 14 de agosto de 2016

Pinturas "China Trade": 2ª parte

Em cima uma pintura com uma vista da baía da Praia Grande em meados do século XX podendo ver-se várias embarcações britânicas rodeadas de juncos chineses e outras pequenas embarcações, para além de várias pessoas no areal.
Este quadro apresenta uma perspectiva aérea da península (a partir da Barra e anterior a 1835) vendo-se do lado esquerdo o Porto Interior e a Ilha Verde e do lado direito a Baía da Praia Grande. Nas várias edificações representadas destaque para a Penha, Fortaleza do Monte, Igreja de S. Lourenço e Convento de S. José.
PS: clicar nas imagens para ver em tamanho maior.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Pinturas "China Trade": 1ª parte

As denominadas pinturas China Trade eram produzidas na China para o mercado de exportação desde o final do século XVIII. A maioria era feita em aguarela e guache sobre papel e tinha como característica a diversidade de cores vibrantes assumindo-se como uma espécie de “postais ilustrados” numa altura em que a fotografia ainda não tinha sido inventada. Estas pinturas atingiriam o pico da popularidade em meados do século XIX e a maioria reproduzia motivos marítimos: embarcações de guerra e de comércio e portos ou cidades portuárias.
A imagem acima - zona do templo A-Ma, na Barra - é retirada de uma colecção de postais editada pelo ICM em 1990. Em baixo um quadro que ilustra Macau ca. de 1840 - é uma reprodução moderna de um quadro antigo - sendo o território apresentado com uma vista panorâmica sobre o Porto Interior.
Para mais informações sobre o tema sugiro o artigo de P. Conner, "Images of Macao", publicado na The Magazine Antiques, em Março de 1999.
Durante este período surgiu o que o mundo da arte denominou como "chinese school", ou "escola chinesa" (1775-1900) e de que num próximo post darei a conhecer mais algumas imagens. Uma das características que tinham era o facto dos quadros não serem assinados pelos pintores.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

"Uma pataca em moeda corrente"


O thesoureiro da agência em Macau pagará a vista ao portador uma pataca em moeda corrente. Valor recebido. Lisboa 1 de Janeiro de 1912.


Criado em 1864 em Portugal como banco emissor para as colónias portuguesas, o Banco Nacional Ultramarino exerceu também funções de Banco de Fomento e Comercial no país e no estrangeiro.
A 30 de Novembro de 1901 foi assinado um acordo entre o Governo português e o Banco Nacional Ultramarino, que levou à criação da Filial de Macau, inaugurada a 8 de Agosto de 1902. O Governo de Macau autorizou o BNU a emitir notas de curso legal, denominadas em Patacas, através de um decreto de 20.2.1902.
Este exemplar pertence à primeira emissão do BNU de Macau, a chamada emissão Antiga Simples. Foram estampadas em Londres, na casa impressora “Barclay & Fry, Ltd”. Entraram em circulação a 19 de Janeiro de 1906 e tinham os valores de 1, 5, 10, 20, 50 e 100 patacas. Incluíam as assinaturas impressas do Governador e Vice-Governador do BNU e manuscritas do Gerente da Filial de Macau. O papel utilizado era de fraca qualidade e só as de 100 patacas apresentavam marca de água.
A série começou no nº 100.000. Esta tem o nº 258,844
Entre 1910 e 1916 o gerente do BNU de Macau foi Artur Drouhin

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Macau por Augusto Cabrita

Já antes tinha escrito um posto a propósito do trabalho de Augusto Cabrita em Macau. Agora sugiro mais algumas imagens recolhidas numa viagem a Macau em 1961. O autor, considerado um mestre da fotografia e com vários trabalhos mo mundo da televisão e do cinema, viveu entre 1923 e 1993.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Macau na era napoleónica

Livro recentemente editado, da autoria de António Alves Caetano, ex presidente da Companhia de Seguros de Macau, "Macau na Era Napoleónica: início dos tempos gloriosos do ouvidor Arriaga" centra-se na vida de Macau nos primeiros anos do século XIX, período em que Napoleão Bonaparte ameaçou a Europa e o mundo. O essencial da investigação realizada baseia-se em documentos oficiais existentes no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa.
Sinopse:
Até que a Inglaterra obtivesse em 1842, como troféu da "1.ª guerra do ópio", a ilha de Hong-Kong, Portugal foi o único país europeu a receber autorização do Imperador Chinês para dispor ali de uma base para realizar comércio marítimo no Extremo Oriente. Durante séculos, Inglaterra, França, Holanda, disputaram o território de Macau aos portugueses e foram organizadas embaixadas ao Imperador a pedir autorização para obter estabelecimento. Que sempre lhes foi negado.
Em 1808, a pretexto de ajudar os macaenses a defender-se de hipotético ataque napoleónico, a Inglaterra ocupou militarmente a Cidade. Durante os três meses que durou a invasão, os mandarins chineses endureceram a posição face às autoridades nacionais e chegaram a ameaçar expulsar os portugueses de Macau, se fosse provado terem sido coniventes com a Grã-Bretanha para a ocupação. Liberto o território das tropas invasoras, poucos meses depois, a intervenção de navios da Cidade, em auxílio da marinha imperial, foi decisiva para ser derrotado Cam Pao Sai, o maior pirata chinês de então. A sua rendição, por ordem do Vice-Rei de Cantão, e vontade do pirata, foi feita perante o ouvidor-geral Miguel de Arriaga, figura cimeira da administração do território.
 
Contra-capa:  
Correu-se o risco de expulsão da população portuguesa de Macau, por determinação do Imperador da China, se fosse confirmado que a administração do território tinha sido conivente com as forças armadas ingleses na invasão que fizeram de Macau em 1808. 
A natureza violenta que a Revolução de 1820 assumiu em Macau, com ataques ferozes ao Ouvidor  Miguel de Arriaga, servidor exemplar dos interesses portugueses no Oriente, que determinaram a sua prisão em masmorra infecta  que lhe destruiu a saúde e contribui para que falecesse precocemente, com apenas 48 anos.

domingo, 7 de agosto de 2016

Um tufão em 1937

O tufão formou-se no Pacífico, em 28 de Agosto (1937), a norte de Yap (Micronésia)), a NW das Ilhas Carolinas (Micronésia), deslocou-se para W e depois para WNW, atravessou o Canal de Balintang (Filipinas) e o seu centro passou a cerca de 10 milhas a Norte de Macau, tendo o barógrafo registado o valor de 717,5 mm valor muito inferior ao dos tufões de 1923, 1927, e 1936 que causaram muitos danos e vítimas na Província. 
Excerto do livro de Agostinho Pereira Natário, "Tufões que Assolaram Macau", editado pelo Serviço Meteorológico de Macau/ Imprensa Nacional em 1957.
As referências () são da minha autoria sendo que o tufão assolou Macau a 2 de Setembro.
Entre os estragos provocados duas imagens: ao lado a zona do Porto Interior (Rua Almirante Sérgio) e em baixo uma das torres de telecomunicações da zona de D. Maria.
Só depois da zona Guerra Mundial os tufões passaram a ter cada um o seu nome

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Sabatino de Ursis: 1575-1620

O livro de Sabatino publicado em 1612

Sabatino de Ursis (1575-1620), conhecido pelo nome chinês de Xiong Sanba, foi um missionário jesuíta italiano, que chegou à China através de Macau para auxiliar Matteo Ricci. É de Sabatino a autoria da primeira obra sobre tecnologia hidráulica do Ocidente introduzida na China publicado pela primeira vez em 1612. 泰西水法六卷 Tai xi shui fa é o nome em chinês do livro que em português se denomina Mecanismos hidráulicos do Ocidente.
Vem tudo isto a propósito de um recente artigo publicado no jornal Hoje Macau (4.8.2016):
António Vasconcelos de Saldanha, professor da Universidade de Macau (UM), descobriu um documento que poderá ajudar a perceber como é que Ciência Ocidental chegou à China. A recente descoberta foi anunciada durante uma conferência na Universidade de Tubingen, na Alemanha, e remete para um diário pessoal do jesuíta Sabatino Ursis. Este padre foi um dos sucessores do Padre Matteo Ricci, geógrafo, cartógrafo e cientista renascentista italiano que esteve em Macau e que era considerado uma importante figura da corte na dinastia Ming. Sabatino Ursis trabalhou em parceria com Matteo Ricci e chegou mesmo a escrever um livro em Chinês. O manuscrito recém descoberto reforça como Sabatino Ursis discutia já problemas práticos e questões teóricas relacionadas com a Hidrologia e a gestão hí- drica na sua obra. Aliás, o mesmo já tinha publicado em Pequim, em 1612, um tratado dedicado ao tema, intitulado “Hydromethods of the Great West”. Na altura, a divulgação foi patrocinada por “importantes figuras da dinastia” Ming, como indica um comunicado da UM, tendo mesmo um prefácio de Xu Guangqi - importante figura no intercâmbio cultural - antes de ser apresentado ao imperador Wanli. Segundo a UM, este estudo pode dar uma perspectiva mais abrangente de como os padres jesuítas influenciaram a introdução dos conhecimentos científicos ocidentais deste lado do mundo. 
Este manuscrito português pertencia aos arquivos jesuítas em Macau, mas encontrava-se agora caído no esquecimento na Biblioteca Real da Ajuda, em Lisboa, onde foi redescoberto e identificado pelo professor António Vasconcelos de Saldanha. O académico é especialista na História de Macau e da Companhia de Jesus, na China. O seu trabalho está a ser desenvolvido em associação com outros projectos de pesquisa “importantes e inovadores”, como indica a UM, sobre Ciência, Tecnologia e Medicina na dinastia Ming. Os jesuítas são tidos como uma referência no mundo das ciências e na divulgação de artigos científicos. Existem nomes sobejamente conhecidos, como é o caso de João Rodrigues, na área da Geografia, e Manuel Dias com o estudo “Uma explicação da Esfera Celestial”, datado de 1615.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A propósito de romarias...

Por Portugal o Verão é tempo de romarias, umas mais pagãs, outras de pendor mais religioso. A esse propósito lembrei-me da Ermida da Penha em Macau, destino de várias procissões/peregrinações.
As imagens são de diferentes épocas mas todas posteriores a 1935, ano da reedificação da Ermida. Ao lado fica a antiga residência do Bispo (imagens abaixo).
 
 
 
 
Aspectos do interior da Ermida da Penha localizada no topo da colina como mesmo nome 
 

terça-feira, 2 de agosto de 2016

De "Pátria" a "Fu Yu"

Já escrevi vários posts a propósito da canhoneira "Pátria" (em cima ca. 1904) e que podem ser vistos, por exemplo, aqui. O que destaco hoje é o 'fim de vida' do navio português que teve várias missões em Macau (em baixo em 1924) e na China, só para nomear algumas. Curiosamente, quando foi 'abatida' ao arsenal da Marinha Portuguesa, a "Pátria" seria vendida à armada chinesa em 1931. Ainda ali serviu até 1937 quando foi afundada pelos navios Ryujo e Hosho, da marinha japonesa, aquando da segunda guerra sino-japonesa.
PS: A "Patria" tem uma forte ligação a Macau. Um dos exemplos é Jaime do Inso (1880-1967), que nela embarcou pela primeira vez em 1904 e da qual viria a ser comandante. Recomendo a esse propósito o artigo por ele publicado acerca da canhoneira nos Anais da Marinha em 1951.

domingo, 31 de julho de 2016

Postal hidroavião: Janeiro 1928


"Macau 3-1-1928 

Minha Antónia, desculpa-me por nesta ocasião não te escrever uma carta porque o que quero dizer não te posso escrever agora por falta de tempo, só horas antes de partir a mala é que se soube aqui que havia mala para Portugal. 
A carta que te quero escrever é muito extensa. Peço-te que me mandes aquilo que te pedi. Nos últimos jornais que receberes vai o de 22 de Janeiro que me esqueceu de o mandar na outra mala. 
Não repares para os postais que que mando pois aqui não há postais (vira) como aqueles que tu me mandaste. 
Este aparelho que aqui vês é da aviação que montaram cá em Macau é dos tais que trouxe o "Pero de Alenquer". Recebe muitas saudades minhas e um beijo do teu marido. 
Manuel. 
Adeus"

Postal enviado de Macau para Portugal em Janeiro de 1928. As referências à "mala" significam a mala do correio marítimo; refere-se ainda a criação do Centro de Aviação Naval (em 1927); o postal mostra um dos três hidroaviões Fayreys (na Taipa) transportados até Macau pelo navio da marinha portuguesa Pêro de Alenquer.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Os Macaenses – Herança e Memórias de Portugal em Macau

Linda Rika Naito, uma académica japonesa apaixonada por Portugal e por Macau, foi a vencedora da mais recente edição (19ª) do Prémio Literário “Rodrigues, o Intérprete” atribuído pela Embaixada de Portugal em Tóquio (Japão). 
O livro abrange uma pesquisa extensiva sobre “Os Macaenses”, a história da comunidade macaense, negócios entre Macau e o Japão e entre Portugal e a China, a situação depois do retorno da soberania de Macau para a China, outras culturas daquela região e entrevistas com vários macaenses.
Segue-se um excerto de um artigo/entrevista da autoria de Liane Ferreira publicado no Jornal Tribuna de Macau a 3.12.2014:
No livro “Os Macaenses – Herança e Memórias de Portugal em Macau”, Linda Rika Naito sustenta que macaense é um “termo sem definição”. “Nunca existiu um conceito fixo”, explicou a autora, enumerando que podem ser identificados oito factores necessários para considerar alguém como sendo macaense: descendência portuguesa; nascido em Macau; educação de origem portuguesa; falante de português; ser católico; ser reconhecido como Macaense pela comunidade macaense; possuir uma certa “portugalidade” – ou seja, “fortes laços culturais e espirituais com Portugal” – e por último um “forte apego ou amor por Macau”.
Considerando que na fase inicial do nascimento da comunidade macaense, a “condição básica da identidade macaense era ser descendente de português e ter nascido em Macau”, Linda Rika Naito afirma que a evolução e diversificação dos macaenses conduziu à inclusão de novos factores para a definição do conceito.
Assim, e como os macaenses têm um historial de diáspora, resultando em novas gerações, o facto de ser nascido em Macau também deixou de ser considerado como condição fundamental. “Os macaenses possuem uma longa história de imigração a outros países e territórios”, disse, ao salientar que “actualmente a maioria da população macaense vive fora de Macau, o que significa o surgimento de gerações de macaenses não nascidas” no território. “Portanto o factor de ser nascido em Macau já não é considerado essencial para ser macaense”.
No mesmo sentido, devido à forte influência chinesa, ser descendente de português deixou de ser um elemento “decisivo”, apesar de ainda ser importante. De acordo com a académica, tal mudança deve-se à redução da população portuguesa, mas também à “diminuição da importância da descendência portuguesa para manter o estatuto social”. “A nova geração de macaenses está cada vez mais a contrair casamento com chineses de Macau e de Hong Kong e muitas das suas crianças já não possuem aparências portuguesas ou ocidentais”.
“O factor mais importante para determinar o macaense não é a sua origem, mas a ‘portugalidade’, se foi criado num ambiente de vida à portuguesa no qual seja possível construir uma etnicidade culturalmente e espiritualmente ligada à comunidade macaense”, entende a professora, que integra o Departamento de Estudos Luso-Brasileiros da Faculdade de Estudos Estrangeiros da Universidade Sophia, no Japão.
Linda Rika Naito destaca que ficou “impressionada com a velocidade do aprofundamento das influências chinesas”, após o estabelecimento da RAEM, sendo “significativa a diminuição do número de macaenses descendentes de portugueses e também de estudantes que frequentam o ensino em língua portuguesa”. “A existência de privilégios políticos e de carreira profissional para os portadores de factores chineses, está a desestimular os mais jovens na preservação dos laços com Portugal”, frisou.
Durante o seu trabalho de pesquisa, a académica entrevistou cerca de 20 personalidades da comunidade macaense, com idades que variavam entre os 20 e 60 anos, incluindo Miguel de Senna Fernandes, António Conceição Júnior, Rita Santos, Jorge Rangel e José Pereira Coutinho, questionando-os sobre o futuro da comunidade e as mudanças na identidade macaense depois da transferência de soberania do território.
Destes encontros, a investigadora sublinha que existe “uma clara divisão” entre optimistas e pessimistas. Enquanto os primeiros acreditam na preservação da comunidade porque esta se tem caracterizado pelo ajustamento e adaptação às diferentes realidades, os pessimistas acreditam na “assimilação à sociedade chinesa” e consequente desaparecimento do macaense.
Linda Rika Naito frisa que os optimistas apontam para o “nascimento de uma nova identidade macaense”, que “aceita a realidade de ter nascido e crescido em Macau, tendo como raiz identitária o profundo laço com a sua terra natal”. “Em suma, é uma identidade que não possui relações com a ‘portugalidade’, ou seja que não está espiritualmente ligado a Portugal e não possui valores e bases de pensamento português. Uma identidade que também não possui no núcleo da sua identidade o forte nacionalismo e a fidelidade à China como cidadão chinês”, destacou. No entanto, a académica alerta que esta direcção significa uma “certa afiliação com a comunidade chinesa com a qual historicamente existiu barreiras”, não sendo “uma tarefa fácil”.
Ressalvando que após a década de 70 foi registado um aumento do número de casamentos entre macaenses e chineses nascidos no território, criou-se uma geração que já se encontra a constituir família. “Desta forma, as barreiras e os obstáculos antes existentes gradualmente desaparecerão e as novas gerações serão portadoras de um maior amor a Macau”, mantendo a característica única “muito diferente” das outras cidades chinesas. Para a académica, nascerá assim “a identidade do macaense independente de Portugal e da China, abrindo novas portas para o seu futuro”. (...)

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Fac(h)adas no património


No início desta semana foi notícia em Macau as obras de renovação de um edifício da Rua do Visconde Paço de Arcos - junto à Ponte 16 no Porto Interior - que antigamente era uma loja de venda de peixe.
Dá-se o caso dos trabalhos terem avançado sem a licença necessária e resultaram na remoção de seis caracteres chineses e respectiva alteração das fachadas do edifício. Segundo consta as autoridades locais vão obrigar à reposição da configuração original pelo que resta aguardar para ver se não se apaga em definitivo mais uma marca da malha urbana do território e que felizmente tem vários exemplos espalhados pela cidade.
Este caso coloca em evidência, mais uma vez, algumas deficiências ao nível da fiscalização e a falta de sensibilidade de alguns particulares para a preservação do património. Refira-se que embora não estejamos perante um edifício classificado, manda o bom senso que impere a sua salvaguarda.
PS: O governo da RAEM decidiu-se pela demolição do antigo hotel Estoril. Ainda assim, o mural da fachada será salvaguardado. Foi essa a garantia deixada pelo presidente do Instituto Cultural.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Morreu Artur Correia, o "ruço"

Artur Correia, antiga glória do futebol português na década de 70, e antigo residente em Macau, morreu esta semana em Portugal. Tinha 66 anos.
Antigo lateral-direito de Benfica, Sporting e da Selecção Nacional (1972-1979), Artur Correia era conhecido no mundo do futebol pela alcunha de "Ruço" tendo somado um total de 35 internacionalizações pela selecção A de Portugal. Vestia a camisola como número 2 e marcou um golo de quinas ao peito.
Começou a jogar no Futebol Benfica, passando depois para o Benfica, onde terminou a formação. No início da carreira sénior, seguiu o sonho da medicina e mudou-se para Coimbra onde jogou três épocas na Académica. Regressou depois à Luz para ganhar cinco campeonatos em seis anos pelo clube de que era sócio desde que nasceu. 

Em 1977 mudou-se para o rival Sporting, depois de recusar um corte salarial no Benfica, e em Alvalade ganharia mais um campeonato, em 1979/80, numa época em que se dividiu entre Portugal e os Estados Unidos, onde teve uma aventura ao serviço do New England Tea Men. Em Setembro de 1980 viu a carreira terminar precocemente, na sequência de um acidente cardiovascular. 
Foi depois desta fase que rumou a Macau. Era eu ainda adolescente e "cruzei-me' com o Artur numa das muitas equipas de futebol juvenil do território e onde ele era treinador. Não sei se pela equipa da Enfermagem se pela do Sporting, ou se pelas duas, o que eu recordo bem é dos treinos intensos no antigo campo de terra do colégio D. Bosco (muito perto do edifício Hoi Fu). Em termos pessoais recordo uma pessoa exigente mas justa e com uma paixão enorme pelo futebol.

 Depois de uma primeira ida a Macau em 1970, a equipa do Sport Lisboa e Benfica voltaria a Macau em 1973. Da comitiva fez parte Artur Correia  - na imagem em cima ao lado de Eusébio que cumprimento o Gov. Nobre de Carvalho.

Shéu, Artur Correia, Simões, Nené, Eusébio, Adolfo, Toni, Artur Jorge, Rui Rodrigues, Humberto Coelho, José Henrique foi o 11 do Benfica em Macau em Fevereiro de 1973.
De acordo com os registos da época, em Hong Kong o SLB derrotou a selecção do território por 11-0, a selecção dos Estrangeiros por 3-1 e a selecção chinesa por 5-1. Em Macau jogou a 11 de Fevereiro no campo desportivo 28 de Maio (Canídromo) contra uma equipa constituída por jogadores de Macau e Hong Kong que seriam derrotados por 11-0.

As ilhas por Lei Chiu Vang e Ou Ping

 Coloane na década de 1960 por Lei Chiu Vang
Taipa por Ou Ping na década de 1970

sábado, 23 de julho de 2016

Letter from Macao: The New Yorker 1951


"This Portugues colony on the South China coast is made up of a three-mile peninsula and two small islands and is 35 miles below Hong Kong. 
Its neutrality plays a big part in its activities. Much smuggling is going on and is linked with the Communist issue-they bring oil and gasoline from Hong Kong to Macao, for later sale in Red China. 
Gold comes in and is sent on to Hong Kong. Macao was founded around 1557. It is the Church's beachhead in East Asia. The most striking symbol of today's neutrality is the post office schedule listing closing time of mails to Portugal by different routes, including by rail across Siberia. Also American salesmanship has promoted American products like Coca Cola and Kleenex. 
There is not much industry-the real thing is the rackets. Gambling goes on all the time; opium can be smoked without much trouble. (...)"

Excerto de artigo da autoria de Christopher Rand publicado na edição da The New Yorker de 17 de Novembro de 1951.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Macau antigo nas obras de Eric Fok

Eric Fok, tido como um dos mais talentosos artistas plásticos da sua geração (nasceu em Macau em 1990), está por estes dias por Lisboa e resolveu fazer-me uma visita. Após o conhecimento virtual esta foi a primeira vez que estivemos frente-a-frente. Falámos de Macau, naturalmente, mas sobretudo da sua carreira, que me parece muito promissora e que merece ser 'acarinhada'.

Vem tudo isto a propósito de uma série de trabalhos de Eric Fok, intitulada Paradise 20 - distinguida com o Prémio Fundação Oriente de Artes Plásticas e escolhida para a Bologna Illustration Exhibition de 2013. Nestas obras é notório o trabalho meticuloso inspirado em mapas antigos que 'interagem' com construções mais recentes do território. E tudo isto com recurso à denominada caneta técnica que Eric domina com mestria e cuja companhia não dispensa, mesmo em férias. 
Eric já participou em exposições em Itália, Portugal, Estados Unidos, Japão, Singapura, Taiwan, Hong Kong e Macau. Numa mostra realizada na Fundação Rui Cunha em 2014, o curador, Chihong Choi referiu-se assim às obras de Eric Fok: “Com todo o capricho, sagacidade e sabedoria, Eric Fok experiencia nas suas obras uma intrigante combinação da “Skyline” e da cartografia, ele cruza o passado com o presente, junta o leste com o oeste, tornando a realidade e a imaginação inseparáveis. Casinos gigantescos, Torre de Macau erguendo-se enorme e engarrafamentos de tráfico ilustrando cada mapa antigo de Macau, são a forma como o artista eloquentemente articula suas preocupações em relação a esta pequena terra a que ele chama a sua casa”.
PS: num próximo post adiantarei mais detalhes sobre a vida e obra de Eric Fok.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

O patuá: reflexão sumária

Henrique Miguel Rodrigues de Senna Fernandes (1923-2010), ilustre escritor e advogado macaense, dizia que "Ser macaense é um estado de alma: somos filhos de uma caso amoroso entre a Ásia e o Ocidente e muito orgulhosos do nosso sangue misto". Lembrei-me disto para este post com algumas notas genéricas sobre o patuá, a "língua macaista" que remonta ao português dos séculos XVI e XVII e chegou a Macau pelos portugueses que vinham de Sião, Malaca, Bengala, Coromandel, Malabar, Ceilão, Surrate, Pérsia...
Monumento da Vitória (1622): foto década 1980
Numa primeira fase os portugueses usaram tradutores locais na comunicação comercial surgindo as primeiras palavras muito ligadas à actividade comercial; mais tarde esse intercâmbio acentuou-se nomeadamente com a presença administrativa e militar permanente; há ainda um importante contributo dos jesuítas que elaboraram muitos glossários e gramáticas.
É assim que desses primeiros contactos emerge um crioulo classificado com pertencente ao grupo sino-português, o chamado macaísta ou patuá, trazido de Malaca desde 1557 e, posteriormente, usado também em Hong Kong e Xangai. 
Estamos pois perante um crioulo baseado no vocabulário português mas enriquecido com inúmeras palavras chinesas e das línguas dos povos que por ali passaram.
Como qualquer língua foi evoluindo com os tempos e manteve-se muito activo até aos primeiros anos do século XX. Seria curiosamente com o surgimento e massificação do ensino após a implantação da república que se inicia o que se pode apelidar de processo de descrioulização, cimentado posteriormente com o facto de depois da segunda guerra mundial se assistir a um grande desagregação das comunidades macaenses (diáspora), fazendo com que o crioulo patuá fosse praticamente extinto. 
Em termos de características, os especialistas consideram existir três tipos de patuá/macaísta: a)o puro ou cerrado, falado principalmente pelas classes baixas que mais tarde ganhou terreno graças ao isolamento da Metrópole; b) o macaísta modificado pela tendência de se aproximar do português, falado pelas pessoas mais instruídas que mantinham maior contacto com a Metrópole; c) e o macaísta falado pelos chineses.
Sugestões de leitura sobre o tema:
Aldina de Araújo Oliveira: 
Algumas considerações sobre a língua chinesa e o dialeto de Macau, 1974, Lisboa. 
Graciete Batalha: 
Estado atual do dialeto macaense, Revista Portuguesa de Filologia, vol. IX, 1958, Coimbra.
Situação e perspetivas do português e dos crioulos de origem portuguesa na Ásia Oriental (Macau, Hong Kong, Malaca, Singapura, Indonésia), 1985, Lisboa.