segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Procissão do Senhor dos Passos: 1910 e agora

Aspecto da Procissão do Senhor dos Passos em 1910 frente à Sé Catedral
 Em baixo uma imagem sensivelmente da mesmo perspectiva mas um século depois.

A Procissão do Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos - faz parte da lista de património cultural intangível de Macau - tem lugar anualmente no primeiro sábado - a deste ano foi este fim de semana - e domingo da Quaresma e é parte da “Novena católica e da Festa em Honra do Senhor Bom Jesus dos Passos”.
A procissão conta com a participação do Bispo da Diocese de Macau, dos membros do clero e de um grande número de fiéis locais e estrangeiros, e é acompanhada pela Banda de Música das Forças de Segurança tocando a marcha fúnebre. Segue o caminho da “via dolorosa”, que representa o percurso de Jesus Cristo do Pretório ao Calvário referido na Bíblia. Actualmente, a procissão decorre ao longo de dois dias. Tem início na Igreja de Santo Agostinho e dirige-se à Igreja da Sé, fazendo o percurso inverso no segundo dia. Em designadas estações da “via sacra”, no percurso de regresso, uma mulher interpreta o papel de Verónica entoando um cântico triste enquanto um padre e os numerosos fiéis respondem com preces e cânticos, criando uma atmosfera de pesar. 
A procissão do Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos tem uma longa história em Macau. Remonta a 1708 (embora hajam referências a 1586), sendo um evento religioso característico e representativo da cidade. Uma nota da época assim o atesta relativa a 25 de Março de 1708: "Neste dia se fes a Procissão do Sr. Crus as Costas pelas Ordinarios por ordem do Sr. Bispo, visto estarem os Padres de St.º Agostinho impedidos no seu convento por cauza de controvercias que tem havido a respeito do Patriarcha – Os Irmãos que acompanhavão o Sr. ião com Capa branca e murça rôxa. A Procissão foi athé S.m Domingos onde ficou ali."


domingo, 18 de fevereiro de 2018

Os Dicionários Luso-Sínicos: relance histórico-bibliográfico

O aparecimento dos primeiros léxicos sino-europeus está naturalmente ligado à acção dos missionários da Companhia de Jesus, na China, a partir de finais do séc. XVI. Na época, em virtude da preponderante presença portuguesa nesta área do Mundo, através do Padroado do Oriente que assistia à Coroa de Portugal, não admira que os primeiros daqueles dicionários utilizassem a Língua portuguesa, ao tempo, juntamente com o Latim, a língua ocidental mais comum; o Português era, então, a "língua franca "no Oriente.
Os missionários jesuítas depressa adoptaram a genial estratégia de penetração no Império do Meio traçada por Matteo Ricci: conquistar, seduzindo pelo intelecto e pelo espírito, a boa vontade das elites, do mandarinato. Para tanto, os missionários aprendiam a língua e a cultura chinesas, os clássicos, os filósofos, conseguindo assim o diálogo de igual para igual com o escol chinês; a sedução operava de seguida, desvanecidos os intelectuais perante estes homens vindos de tão longe e que não procuravam benesses materiais, seus pares na cultura e no espírito. Abria--se o caminho aos Inacianos para insinuar os princípios da ciência e do pensamento europeus, e finalmente, mas como objectivo principal, os do seu ideário ético-religioso.
Tendo em conta a dominante relação triangular, nos finais do séc. XVI, entre Portugal, a Companhia de Jesus e a China, os primeiros esforços lexicológicos surgem naturalmente, como já se disse, com a língua portuguesa. Infelizmente, estes primeiros dicionários permanecem até hoje manuscritos, e assim inéditos.
O P.e Pasquale d'Elia, S. J., no segundo volume das Fonti Ricciane, reproduz fotograficamente uma página do na do Dicionário Português-Chinês, o primeiro entre esta língua e uma língua europeia. É da autoria dos P.es Ricci e Ruggieri, e elaborado, avança d'Elia, provavelmente entre os anos de 1584 e 1588. Escreve o P.e d'Elia: "Questo cimelio della sinologia, che rappresenta il primo dizio-nario europeo-cinese del mondo e a cui possiamo dare il titolo di Dizionario portoguese-cinese, esiste ancora manoscrito in ARSI, Jap. Sin., I, 198, dove e stato da me ritrovato e identificato nel 1934. Esso consta di ff. 189 in carta cinese di cm. 23x16,5. "É bem clara a afirmação deste erudito orientalista italiano: o primeiro dicionário sino--europeu do mundo é um dicionário Português -Chinês. D'Elia descreve o manuscrito, que vai da palavra abitara zunir, em três colunas: a primeira com os vocábulos portugueses, a segunda com a romanização italiana, a terceira com os caracteres das palavras em Chinês. Como nem sempre há o equivalente chinês do vocábulo português, o dicionário não está infelizmente completo.
Só mais de meio século depois, aí por 1640, é que surge novo dicionário luso-sínico, desta vez da autoria de um Jesuíta português. Trata-se do P. ê Álvaro Semedo (1586-1658), bem conhecido pela sua Relação da Grande Monarquia da China, autor de dois léxicos manuscritos, português--chinês e chinês-português. Referem-se-lhe Barbosa Machado, Pfister, Henri Bernard, Couling, e provavelmente outros. O Padre Manuel Teixeira escreve (Cfr. Religião e Pátria, 1960, p.614): "Em 15-11-1870 existia na Biblioteca do Seminário de S. José, de Macau, pertencente ao Seminário de Pequim, fundado em 1601, um velho dicionário feito por um dos primeiros missionários jesuítas na China (possivelmente o P. ê Semedo). Trouxe-o de Pequim o lazarista P. ê Joaquim AfonsoGonçalves e enviou-o, em 1870, para a Real Biblioteca Nacional de Lisboa, o Dr. Carvalho, Governador do Bispado de Macau".
Outro Dicionário da língua Chinese (sic) e Portuguesa, manuscrito provavelmente da mesma época do anterior, é referido por Barbosa Machado (não encontrei referências nem em Pfister, nem em H. Bernard, nem em Cordier) como da autoria do Padre Gaspar Ferreira, S. J., (1574-1649). Diz Barbosa Machado que colheu esta informação na Nouvelle Relation de la Chine, do Padre Gabriel de Magalhães, que é a versão francesa da sua obra inédita em português As doze Excelências do Império da China.
Pfister e Couling mencionam outro manuscrito do Padre Gabriel de Magalhães (1610-1677), um tratado sobre a escrita e língua chinesa, em que ele próprio refere ter recolhido terminologia teológica e filosófica. Mas desconhece-se o paradeiro deste manuscrito, que não seria um verdadeiro dicionário, mas talvez um vocabulário ou glossário.
Diversos autores e bibliografias mencionam outros dicionários luso-sínicos manuscritos. Tentarei fazer o seu elenco sem pretender ser exaustivo; e, tendo em conta que alguns não têm autoria conhecida, nem data, é provável que venham referidos em ordem incorrecta.
Pfister assinala que o P. ê H. Bernard e o Irmão van den Brandt encontraram em Roma, em 1933, um dicionário chinês-português manuscrito, sem data, nome de autor ou prefácio. Avançam Pfister e d'Elia (que também se lhe refere) que deve ser de 1660 ou 1661. Com efeito, este manuscrito contém, no fim, uma lista em latim e chinês de 77 missionários, desde S. Francisco Xavier até ao Padre Cristiano Herdricht, chegado à China em 1660. Esta lista, bem como uma outra de 16 jesuítas que não chegaram ao sacerdócio, considerada raríssima, vem reproduzida fotograficamente por Pfister no início do 2° volume das suas Notices. O dicionário e a lista foram adquiridos, nos anos trinta, pela Biblioteca Nacional de Pequim.
Outros dicionários luso-sínicos são assinalados na notável e sempre útil Bibliotheca Sinica de Cordier, nos vols. III e IV. Ao ocupar-se de diversos dicionários manuscritos (col. 1626 e segs.), refere o dicionário chinês-latim-francês-português--italiano-alemão do Padre Florian Bahr. Cordier diz não o ter encontrado, sugerindo uma possível confusão com o manuscrito do P. e De la Charme, apesar de lhe ter sido indicado pelo Ministro de França em Pequim, Conde Julien de Rochechou-art, que ele existia na Biblioteca dos Lazaristas, no Beitang. Mas a verdade é que o Catalogue de la Bibliothèque du Pé-T'ang, Pékin, Imprimerie des Lazaristes, 1949, não lhe faz referência.
Cordier indica a existência de dois dicionários manuscritos na Biblioteca Real de Estocolmo: um chinês-português (e latim), de 880 pp. in folio e sete mil caracteres (este dicionário vem na Bibliografia Macaense de Luís G. Gomes, com o n. ° 504); e outro chinês-latim (e português). Assinala também um dicionário português-chinês manuscrito, dito "Dicionário de Varo", existente na Biblioteca Apostólica Vaticana, fundo Borgia Cinese 420: Vocabolario da lingoa Mandarina ordenado por el RR P. ~&e Fr. Francisco Varo da orden de Pregadores [...]feite [sic] nella igreja de N. P. ~&e. Santo Domingo da cidade de Fôning a 20 de Mayo do anno 1670(Repare-se na confusão entre o Português, o Espanhol e o Italiano).
Na Biblioteca Vaticana, também no fundo Borgia Cinese 473, há um outro dicionário manuscrito chinês-português, por radicais dos caracteres, em que na parte da caligrafia europeia Cordier sugere que possa ser da mão de Foucquet. Nos manuscritos sobre o Extremo-Oriente da Biblioteca Vaticana, há ainda um outro dicionário chinês-português, com os vocábulos por ordem alfabética romanizada, com a indicação "anno do Senhor de 1625", e que pertenceu a Castorano.
Até aqui, todos os dicionários luso-sínicos em reportório são, como se viu, manuscritos inéditos. Quanto sei, só a partir do séc. XIX começaram novos léxicos a ser dados à estampa. Os primeiros passos nesse sentido devem-se ao Padre Joaquim Afonso Gonçalves, que passou trinta anos da sua vida em Macau. Presbítero da Congregação da Missão, foi autor de Gramáticas, Léxicos, etc.. O seu Dicionário portuguez-china, no estylo vulgar mandarim, e clássico geral, foi publicado pelo Colégio de S. José, em Macau, em 1831. Dois anos após saía o Dicionário china-portuguez, no estylo vulgar mandarim, e clássico geral, no mesmo Colégio. Embora desactualizados e de algo difícil consulta, constituem um trabalho pioneiro e valioso, mostrando além do mais o "cursivo" dos caracteres chineses ao lado da forma de imprensa.
Já no presente século, aumentou consideravelmente o número de dicionários luso-sínicos vindos a lume, que tentarei agora inventariar, mais uma vez sem qualquer pretensão de ser exaustivo.
Refiro em primeiro lugar, pois entendo que se justifica apesar da inversão cronológica, o Dicionário Chinês-Português de Análise Semântica Universal, do Padre Joaquim A. de Jesus Guerra, S. J., publicado em Macau em 1981. Ao longo das suas 1118 páginas reflecte-se uma vida de estudo que dignifica a sinologia portuguesa.
Para os restantes dicionários publicados em Macau, valho-me da Bibliografia Macaense de Luís G. Gomes, publicada pelo Instituto Cultural de Macau em 1987, em reedição fac-similada, que referirei pela sigla B. M.. Incluirei outros cuja indicação devo ao meu amigo Dr. António Graça de Abreu e aos seus vastos conhecimentos sobre o mundo chinês e as suas ligações com o português.



- Alexandre Majer, Vocabulário português-chinês, Macau, Escola Tipográfica do Orfanato, 1934, B. M. n° 964.
- Luís G. Gomes, Vocabulário cantonense-português, Macau, Centenário da Fundação e Restauração, 1941, B. M. n" 706.
- Luís G. Gomes, Vocabulário português-cantonense, Macau, Centenário da Fundação e Restauração, 1942, B. M. n° 707.
- Luís G. Gomes, Vocabulário português-inglês-cantonense, Macau, San Chong Trading & C°, 1954, B. M. n° 708; 2a ed., 1958, B. M. n° 709.
- Dicionário de algibeira chinês-português, Macau, Edição do Governo da Província, 1962, B. M. n°502.
- Dicionário chinês-português, Macau, Edição do Governo da Província, Imprensa Nacional de Macau, 1962, B. M. n" 503.
- Dicionário de algibeira português-chinês, Macau, Edição do Governo da Província, Imprensa Nacional de Macau, 1969, B. M. n° 505.
- Dicionário português-chinês, Macau, Edição do Governo da Província, Imprensa Nacional de Macau, 1971, B. M. n. ° 506.
- Um dicionário sem data, plagiando os de Macau, publicado em Hong Kong pela Guoji yuyan zhongxin yinghang, intitulado Dicionário de Algibeira Português-Chinês, e em chinês Xin-bian Pu Zhong Zidian, ou seja "Novo Dicionário Português-Chinês".
- Dicionário Português-Chinês, Pu Zhong Zidian, São Paulo, Artes Gráficas Editora, 1974.
Em cerca de 400 anos, pois, temos uns doze dicionários luso-sínicos manuscritos inéditos e uns treze impressos. Desnecessário será sublinhar o grande interesse, de um ponto de vista histórico e linguístico, dos primeiros. A circunstância de a língua portuguesa ter sido a dominante, a "língua franca" de então, na Ásia Extrema,bem podia justificar um esforço de investigação e editorial, agora que nos aproximamos, com o fim do milénio, do termo do nosso "ciclo do Oriente". Desejando-se que uma das vertentes da nossa presença futura nesta área seja a cultural, bem enriqueceria os estudos orientalistas portugueses a publicação de um daqueles dicionários luso-sínicos dos primeiros tempos. E porque não o primeiro de todos, o manuscrito de Ricci e Ruggieri, conservado no arquivo da casa--mãe dos Jesuítas, em Roma, numa edição científica e graficamente cuidada que nos prestigiasse nos meios sinológicos mundiais? Tal aconteceu, embora com escasso envolvimento nosso, com a publicação no Japão, em 1980, do Vocabulario da lingoa de Iapam, de 1603. Que esta iniciativa possa servir de exemplo, e sobretudo de estímulo, nos últimos anos da nossa presença administrativa na Cidade do Nome de Deus na China.
Artigo da autoria de João de Deus Ramos in Revista de Cultura, N°22, II Série, Janeiro/Março de 1995

sábado, 17 de fevereiro de 2018

O Ano Novo chinês na década de 1950

“Por entre o estralejar ruidoso e constante dos panchões e estalinhos, a que se junta o natural alvoroço dos dias festivos, surgiu na noite de 23 para 24 do mês de Janeiro (1.ª lua) o Novo Ano Chinês. Em Macau, onde a população china não dorme durante dois dias e duas noites, a festa, com a maioria dos estabelecimentos comerciais encerrados, é tradicionalmente rija e cheia de colorido, decorrendo num ambiente de euforia difícil de descrever.

Muita gente suspende o trabalho e, para alguns, é chegada a altura de receber o sonhado fau-hong – modesta compensação de um ano inteiro de labuta. Acertam-se as contas, pagam-se as dívidas, fazem-se compras, estreiam-se novas cabaias, visitam-se os parentes e amigos, trocam-se ofertas e os lai-si – pequenos sobrescritos vermelhos, simbólicos portadores da Felicidade, contendo alguns avos – andam de mão em mão. A todo o momento e por toda a parte, ouvem-se felicitações: – Kong-hei Fat-choi! E nesta frase usual, simples e expressiva, há um pequeno mundo de esperança e promessas. Há pelo menos, a ilusória mas sincera intenção de prognosticar auspiciosas riquezas e venturas perenes…
Embora a China tenha adoptado o calendário gregoriano desde a implantação da República, em 1911, os chineses continuam tradicionalmente a festejar o San Nin ou Ano Novo, pela contagem das luas, e daí ser, também, designado por Ano Lunar. Durante os festejos, o chinês obsequeia faustosamente os seus deuses, invocando a sua protecção; procura afugentar os espíritos malignos que povoam todas as habitações, e amedrontar os seres perniciosos que, porventura, intentem realizar os seus malefícios; e celebra o culto dos antepassados, além de prestar submissão ao chefe de família. E tudo isto realizado sob a forma de cerimónias solenes a que assistem todos os parentes, findas as quais se queimam mais panchões, se acendem pivetes e explodem os petardos, num crepitar incessante e atroador.
Depois, vem o abundante repasto, ofertado por intenção aos deuses e composto de mil e uma iguarias, que são saboreadas gulosamente e no meio do maior júbilo.
Com o advento do Novo Ano, verifica-se o regresso do ‘Deus Fogão’ – ‘o espião que tudo vê’ e que, sete dias antes, partira do seu nicho, na cozinha, a fim de, junto do ‘Soberano dos Céus’ (o Imperador Jade) relatar quanto observara, em cada casa, durante um ano inteiro. Assim, para evitar a coscuvilhice daquela divindade, cada família procura cativar as suas graças e obter a sua indulgência, ofertando-lhe bolinhos, velas e pivetes e ‘batendo-lhe cabeça’, chegando alguns a oferecer-lhe mel para adoçar os beiços, ou bebidas alcoólicas para lhe entorpecer a memória e lograr, deste modo astucioso e pueril, a omissão de algumas faltas que pesam nas suas consciências e pelas quais recebem o castigo de ‘Iôk-Uóng’ – o soberano hierárquico do ‘Deus Fogão’…
O chinês tem nesta época festiva a preocupação de vestir as melhores cabaias, calçar sapatos novos e melhorar as próprias refeições. Por outro lado, é tradicional a permuta de ofertas com parentes e amigos e ainda, a visita recíproca entre eles.
Nos pagodes e oratórios públicos, ardem pivetes, incenso e sândalo e, nesses dias, a afluência desusada dos devotos constitui um acontecimento espectacular, pelo movimento, diversidade e colorido das gentes. Ali encontramos um sortimento completo de acepipes, frutas, vinhos e carnes (ou simples punhados de arroz) votados às preclaras divindades e tendentes a aplacar as suas iras.
Cumpridas as formalidades rituais, toda a gente vem para a rua, a passear e a divertir-se ruidosamente.
Na Rua dos Mercadores e na das Estalagens, pululam os vendedores ambulantes das mais diversas e características prendas, não faltando os hon-pau, pequenos sobrescritos vermelhos, destinados a conter os lai-si e os calígrafos, vendendo os seus letreiros vermelhos de caracteres dourados com frases auspiciosas de prosperidade. Estes são colados nas paredes exteriores da habitação, nas portas e nos veículos, e as suas inscrições referem-se a votos de longa vida, mil e uma venturas, numerosa prole. Outras há que amaldiçoam os espíritos malignos. 
Uma nota pitoresca dos festejos do Novo Ano Chinês em Macau é a que se observa no Largo do Leal Senado onde a multidão se aglomera para a compra de flores e plantas. Há a convicção, entre os chineses, de que certas plantas têm o condão de atrair a Felicidade e, daí, a grande procura de determinadas espécies. Elegantes e graciosas chinesitas, vestidas a rigor nas suas cabaias estreitas e coloridas, de grandes aberturas laterais, passeiam e sorriem, por entre as bancadas floridas experimentando o odor perfumado dessas frágeis florinhas, tão frágeis e tão simples como elas.
Mas este ambiente festivo, de cor, aparato e movimento, estende-se por toda a cidade, desde as grandes avenidas aos bairros mais humildes. No Porto Interior, os juncos e tancares – embarcações que constituem residência flutuante e permanente – ostentam rubras bandeiras, e numerosos e berrantes letreiros vermelhos, com caracteres dourados. Durante três dias, toda a frota piscatória deixa a faina do mar: os barcos aproximam-se do porto e aglomeram-se ali, aos milhares. E os seus habitantes largam o labor quotidiano e vêm passar o Ano Novo à cidade. É assim o povo chinês, levando uma vida árdua, de intenso labor, procura nesta época, tirar partido desse esforço, entregando-se exclusivamente à folia, na vã quimera de melhores dias.”

Artigo da autoria de Ninélio Barreira, publicado no “Sábado Popular”, suplemento do “Diário Popular” (1942-1991), em 1957 e republicado no  livro “Ou-Mun – coisas e tipos de Macau”, edição ICM, 1994

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

O "clu-clu" no ano novo chinês de 1895


A par do fantan, apenas um outro jogo se equipara em termos de popularidade. Refiro-me ao Cussec, igualmente conhecido por uma variedade de outras designações: Clu-Clu (século XIX, pelo som produzido pelos três dados), Sic Bo, Big and Small, Tai Siu (grande e pequeno).
Enquanto o fantan já era explorado mediante autorização expressa do governo (regime de licença ou concessão em exclusivo) desde meados do século XIX, o Cussec foi durante mais de um século explorado apenas por alturas do ano novo chinês.
Veja-se o anúncio publicado em Boletim Oficial de 22 de Dezembro de 1894 para atribuir uma licença de 25 de Janeiro a 1 de Fevereiro de 1895, mais concretamente "em hasta pública e por licitação verbal à adjudicação para se estabelecerem mesas de jogo clu-clu nas ruas do bairro china".
Seria apenas a partir de 1962 que o cussec passou a ser explorado de modo permanente com a entrada em cena da STDM.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Macau prepara chegada do Ano Novo Lunar do Cão

Com a chegada do Ano Novo Lunar do Cão, que acontecerá dia 16 de Fevereiro, a Direcção dos Serviços de Turismo de Macau preparou um vasto programa de festividades.
Do programa fazem parte concertos, espectáculos étnicos, actuações da Dança do Dragão, workshops e exposições.
O ponto alto das festividades está agendado para o dia 18 de Fevereiro, domingo, com a realização de uma parada de carros alegóricos com actuações culturais entre a Praça do Lago Sai Van e o Centro de Ciência de Macau, e que contará com a participação da marcha do Bairro Alto, seguindo-se pelas 21:45 o sempre tão esperado fogo-de-artifício na baía em frente da Torre de Macau.
Esta parada irá repetir-se no dia 24 de Fevereiro, sábado, entre a Rua Norte do Patane e o Jardim Municipal de Iao Hon, onde acontecerão diversas actuações culturais e artísticas.
Kun Hei Fat Choi!

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Uma 'Porta' na Travessa da Paixão

Imagem da década de 1910/20 onde pode ver-se uma das várias portas do muro que cercava o colégio de S. Paulo na denominada Travessa da Paixão (desde 1925). O topónimo remete para o sentimento e respeito pela religião. O nome em chinês significa romântico/amor
Década 1930
As Ruínas de S. Paulo referem-se ao conjunto formado pela fachada da antiga Igreja da Madre de Deus, construída entre 1602 e 1640, e as ruínas do antigo Colégio de S. Paulo, que ficava localizado ao lado da igreja, ambos destruídos por um incêndio em 1835. Em conjunto, a antiga Igreja da Madre de Deus, o Colégio de S. Paulo e a Fortaleza do Monte eram todas construções jesuítas e formavam um conjunto que pode ser identificado como a "acrópole" de Macau. A fachada das Ruínas de S. Paulo mede 23 m de largura por 25,5 m de altura, estando dividida em cinco níveis. Seguindo o conceito clássico da divina ascensão, as ordens da fachada em cada nível horizontal evolvem da base para o topo da ordem jónica, passando pela ordem coríntia até à ordem compósita.
Foto de Harry Ho (2017)
Os dois níveis superiores estreitam gradualmente para suportar um frontão triangular no topo, que simboliza o último estado da divina ascensão - o Espírito Santo. A fachada é de estilo maneirista, incorporando alguns elementos decorativos tipicamente orientais. Os temas escultóricos incluem imagens bíblicas, representações mitológicas, caracteres chineses, crisântemos japoneses, um barco português, vários motivos náuticos, leões chineses, estátuas de bronze com imagens dos santos jesuítas fundadores da Companhia de Jesus e outros elementos que integram influências europeias, chinesas e de outras partes da Ásia. No seu todo, essa composição reflecte uma fusão de influências à escala mundial, regional e local. Hoje em dia, a fachada de S. Paulo funciona simbolicamente como o altar da cidade. O seu traçado barroco/maneirista de granito é único na China (tal como refere a publicação Atlas mundial de la arquitectura barroca, da UNESCO). As Ruínas de S. Paulo são um dos exemplos mais eloquentes do valor universal excepcional de Macau.
Na proximidade da fachada, os vestígios arqueológicos do antigo Colégio de S. Paulo apresentam um testemunho do que foi em tempos a primeira universidade de modelo ocidental no Extremo Oriente, que contava com um programa académico extenso, incluindo as disciplinas de Teologia, Matemática, Geografia, Chinês, Português, Latim, Astronomia, entre outras. Contribuiu significativamente para a preparação de um elevado número de missionários no seu trabalho de difusão da missão católica romana na China, no Japão e em toda a região. O trabalho missionário protagonizado pelos jesuítas de Macau por toda a região foi crucial na disseminação do catolicismo na China, no Japão e noutros países, permitindo também um maior intercâmbio noutros domínios, como no científico, no artístico e no cultural.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

"Macau - Sa Carnaval"


Brincando ao Carnaval: Macau, 1925

Versão portuguesa de “Macau - Sa Carnaval” (“O Carnaval de Macau”), da autoria de Adé:

A nossa Avozinha, noutros tempos,
Mascarava-se em todos os carnavais.
Em grupinhos, com senhoras conhecidas,
Deixando os maridinhos em casa,
Elas adoravam sair à rua mascaradas,
Perfiladas atrás da tuna musical
Para fazer toda a casta de diabruras
E dizer coisas com imensa piada.
Recordar o carnaval doutros tempos
É para a Avozinha sentir saudades.
Carnaval era tempo de ladú,
Massa guisada e pudim de nabo.
Havia hora para cantar e dançar
E hora para os mascarados divertirem a gente.
Ninguém dava cavaco,
Quando eles se metiam com as pessoas.
Um mês antes do entrudo
A paródia começava em vários lugares.
Os mascarados, acompanhados da tuna,
ʻAssaltavamʼ casas de amigos,
Para dançar, cantar e alegrar o coração.
Os donos da casa não se preocupavam...
Os ʻassaltantesʼ que iam para se divertir
Levavam consigo ceia farta.
Chegado o carnaval, o Clube de Macau,
Clube dos Sargentos e Grémio Militar
Davam animados bailes.
A gentinha dançava até doer os pés,
Desde a noitinha até ao amanhecer.
Chegada a hora, serviam canja de galinha
E uma porção de iguarias,
Que todos comiam até se fartar.
Depois do carnaval, havia comédias
No dialecto antigo de Macau,
Para todos rirem às bandeiras despregadas.
Passados uns dias, vinha a ʻmicaremeʼ,
Com mais bailaricos nos clubes.
A tuna tornava a sair
Com os mascarados a fazer-lhe cauda,
Para ʻassaltarʼ mais alguns casarões.
Agora, o carnaval, chegada a hora
Vem e depressa se vai embora,
Ninguém sentindo a sua presença.
Gente entretida com a política
Não tem pachorra para se mascarar.
Para se verem por aí bobos,
Com a boca cheia de baboseiras,
Não é preciso esperar pelo carnaval.”

Hoje em dia, as festas de Carnaval (assaltos/desfiles/bailes) já não são nada do que foram, embora ainda se realizem. A sua importância foi-se perdendo ao longo da segunda metade do século XX.

José Silveira Machado, no livro “Macau na Memória do Tempo”, (2002) escreve a este propósito:

“Em épocas passadas, Macau ria a bandeiras despregadas. Vestia-se de fantasia e andava pelas ruas, cantando e galhofando, palhaçando, em gestos e atitudes de truão. Os sons alegres das tunas e os risos do rapazio explodiam em melodias ensaiadas durante muitas semanas e em gargalhadas estridentes, provocadas muitas vezes pela visão das máscaras, engraçadas e originais”.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Ein Tagebuch in Bildern: photographic journal


Alfons Von Mumm (1859-1924) foi um diplomata alemão (ainda nos tempos do Império germânico) e esteve colocado em Pequim em 1900, na altura da denominada Revolta dos Boxers. Antes tinha estado em Londres, Washington, Bucareste, Roma, Luxemburgo, etc... 
Era um apaixonado pelo fotografia tendo deixado milhares de registos das suas viagens que surgem em álbuns do tipo diário ilustrado como o "Ein Tagebuch in Bildern" onde na página 531 do primeiro volume estão cinco fotografias de Macau (imagem abaixo): ruínas de S. Paulo, hotel Boa Vista, vistas da fortaleza do monte, porto interior e praia grande.

Ein Tagebuch in Bildern - Photographic Journal (Vol. 1)
Collection of photographs taken by Albert von Mumm in cities including Beijing and Shanghai. Mumm departed from Genova in July 1900, and arrived in Beijing in October of the same year. The photographs cover the period from his departure until July 1902. Includes a handwritten note by the author stating that the collection was presented to Morrison on January 1, 1904.
Philipp Alfons Freiherr Mumm von Schwarzenstein (1859 – 1924) (also known as Alfons von Mumm) was a diplomat of the German Empire. He succeeded the murdered Baron Clemens von Ketteler as ambassador in Beijing in 1900.
Mumm studied law at Göttingen University and entered the diplomatic service afterwards. He served in London (1885), Washington D.C. (1888), Bucarest (1892–93), Rome (1893–94), Luxembourgh (1898) and again in Washington (1899). During his years in China, he dealt with the Boxer Rebellion and signed The Boxer Protocol on September 7, 1901 on behalf of Germany, maintained an extraordinarily good relation with Empress Dowager Cixi, but also he took many pictures of China in the 1900s as an amateur photographer. From 1909-11, he was ambassador of the German Reich in Japan. He retired in 1911, but was reactivated 1914 in Berlin. In March through November 1918, he represented the German Reich in Kiev.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

"O Anno Novo" por Wenceslau de Moraes

"Temos festa hoje, aqui. Acaba o ano velho, começa o ano novo. Mas não vão imaginar que seja do ano novo de que rezam os nossos calendários, a comemoração; tal comemoração, aqui, no fim do mundo, no seio desta colónia nostálgica, passa insípida, quase sem alvoroços íntimos de família, limitada à troca banal - troca sem cedilha e com cedilha - de algumas dúzias de bilhetes de visita, com as competentes boas-festas escritas, da pragmática. Trata-se do ano lunar que finda, do ano lunar que principia, o ano chinês enfim, a ampulheta que marca para o povo amarelo as suas horas de existência; vamos entrar no ano XXII do reinado de sua majestade imperial celestial, Kuang-Su.
Temos festa hoje, aqui. A alma chinesa manifesta-se, evidencia-se, domina, hoje; ofusca, pela grande maioria dos rabichos, o pálido reflexo da civilização do Ocidente que logrou chegar a este Macau, a este exíguo penedo asiático, onde Portugal implantou a sua bandeira.
Meia noite. Ao meu obscuro albergue, chega, de além dos bazares, o ruído da bombardada amotinadora dos foguetes, e das mil e mil embarcações fundeadas no porto o clamor ovante das bátegas, vibradas pelas mãos rudes das companhas. Que irá lá por esses bazares, a esta horas, santo Deus!... Eu não me arredo do meu canto. Bem sei que a febre das massas sugestiona, contamina todos. Bem sei que não se dorme hoje; que não há chapéu de coco de amanuense ou kepi de militar, direi mesmo chapelinho de pelúcia com laçarotes de cetim e o seu competente pássaro empalhado, de menina, que não vá correr as vielas, perder-se na onda, confundir-se com os rabichos, gozar com eles. Mas está tanto frio, e as bagas de água zurzem-me tão desapiadamente os vidros das janelas... E, pior do que isto, é o frio da alma, é a apatia enervante do meu espírito, é o sorriso amargo que me enruga os lábios, provocado por esse mesmo jubilo do enxame, que aqui me retêm e me impedem de também ir galhofar.
Não, decididamente não serei da festa. Imagino-a daqui. Imagino essas ruas lamacentas, coalhadas de povo sujo, com as cabais negras ensopadas dos chuviscos; e imagino os lumes tremeluzentes das lanternas de papel, acendendo nas poças, pelo reflexo... grandes labaredas efémeras, ziguezagueando. As lojas estão escancaradas ao público; frutos, flores, doces, carniças, bonecos, coisas santas, estendem-se pelos caminhos em prodigiosas teorias, em coloridos quase estonteantes; e é comprar, e comprar já, porque não tarda em romper o glorioso dia de descanso, o único na China em que o camponês, o artífice, o vendilhão, todos, cruzam os braços, não trabalham; e nem a peso de ouro se encontraria um linguado, uma caixa de fósforos, qualquer ínfimo objecto nos mercados. As espeluncas de jogo, em galas desusadas, oferecem-se, tentam a onda; e até pelas ruas o tabuleiro de azar se estende ao passeante. Que pechincha, se se apanha para a festa um acréscimo de pecúlio não esperado! O china adora o jogo - era preciso que ele adorasse alguma coisa! - mas hoje todos jogam, todos são chinas, e é isto um exemplo interessante da influência sugestiva das grandes maiorias; a mão mais circunspecta de funcionário, a mão mais mimosa de dama (de nhônha, em dialecto vulgar desta colónia) avançam sem pejo, arriscam à sorte vária umas pratinhas...
Quando bate meia noite; quando, junto do altar dos penates, se curvaram em piedosas adorações milhares de cabeças agradecidas, e se queimaram papéis místicos, e se acederam pivetes odoríficos; quando em plena rua um brado de aleluia os ecos acordou; dirige-se então a onda humana para o lar, já mercas feitas, já bolsas esvaziadas; e vai surgir um grande dia votado inteiro ao descanso, votado à glorificação dos deuses, cuja magnânima assistência se exalta pelas graças concedidas e pelas graças que vão esperar-se!...(...)
Capa da segunda edição: 1938
Para o ano novo, tudo se prepara com antecedência, em prodigiosa azáfama; é para todos uma ocupação incessante e desusada, durante as últimas semanas do ano que vai findar. Lavam-se os covis, lavam-se as pobres mobílias. É o pó de um ano que se sacode, é a lama de um ano que se deita fora, é o piolho e é a pulga de um ano que se afogam na onda das barrelas; porque, durante os labores de cada dia, nunca a ideia de limpeza preocupou os espíritos durante um só instante. (...)
Conceda-se pois, por excepção, a este bom povo celestial, o capricho de lavar uma vez cada ano o antro onde se abriga. Depois, é ver a faina de colar pelas paredes, pelas portas, pelas janelas, papéis de bela cor escarlate, com negras inscrições cabalísticas, que são votos de ventura e de riqueza, que são preces aos deuses. E chega a ocasião de se adornarem os altares, de se irem comprar junquilhos em flor, que se dispõem em vasos gentis com água e seixos alvos, e assim vão enfeitar os aposentos, levando o viço e o perfume, por um dia, aos negrumes das alcovas. No meio do complicado rito das usanças, algumas práticas enternecedoras, de ingenuidade primitiva, interessam o curioso. Reparem por exemplo nas enormes celhas expostas pelos mercados, onde enxames de pequeninos peixes negros, carpas barbudas, estrebucham na gota de água do improvisado cativeiro; o povo compra-as, e vai lançá-las em seguida nas ribeiras, gozando na acção do resgate, por certo grata aos deuses, e que redundará em benefícios."
"O Anno Novo", da autoria de Wenceslau de Moraes in Paisagens da China e do Japão. Lisboa, Livraria Editora Viúva Tavares Cardoso, 1906

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Kung Hei Fat Choi

Os preparativos para a grande festa do ano novo chinês começam este ano a 8 de Fevereiro e vão até ao dia 15 com a chamada festa do "ano pequeno". A 16 de Fevereiro, o primeiro dia da primeira Lua do ano, tem início o "Festival da Primavera" - a festa propriamente dita - que se prolonga até 2 de Março, incluindo desde o dia 27 de Fevereiro o Festival das Lanternas.

Considerado dos mais antigos, o calendário lunar chinês remonta a 2637 A. C. quando o Imperador Huang Ti introduziu o 1.º ciclo deste zodíaco no ano 61 do seu reinado. Um ciclo completo tem 60 anos e é constituído por 5 ciclos simples – metal, água, madeira, fogo e terra – de 12 anos cada.
Doze animais – Rato, Búfalo, Tigre, Coelho, Dragão, Cobra, Cavalo, Cabra, Macaco, Galo, Cão e Porco – estão relacionados com cada um dos doze anos de cada ciclo simples. Segundo a lenda, Buda convocou todos os animais, antes de iniciar a sua partida da Terra. Só doze compareceram para se despedirem. Como recompensa Buda deu o nome de cada animal, por ordem de chegada, a cada ano do ciclo lunar. O rato foi o primeiro a chegar...
Os 12 animais do zodíaco chinês:
rato (鼠—shǔ), búfalo (牛—niú), tigre (虎—hǔ), coelho (兔—tù), dragão (龙—lóng), cobra (蛇—shé), cavalo (马—mǎ), cabra (羊—yang), macaco (猴—hóu), galo (鸡—jī), cão (狗—gǒu), porco (猪—zhū).

Por ano de nascimento:
Rato
鼠 (shǔ)
1924, 1936, 1948, 1960, 1972, 1984, 1996, 2008
Búalo
牛 (niú)
1925, 1937, 1949, 1961, 1973, 1985, 1997, 2009
Tigre
虎 (hǔ)
1926, 1938, 1950, 1962, 1974, 1986, 1998, 2010
Coelho
兔 (tù)
1927, 1939, 1951, 1963, 1975, 1987, 1999, 2011
Dragão
龙 (lóng)
1928, 1940, 1952, 1964, 1976, 1988, 2000, 2012
Cobra
蛇 (shé)
1929, 1941, 1953, 1965, 1977, 1989, 2001, 2013
Cavalo
马 (mǎ)
1930, 1942, 1954, 1966, 1978, 1990, 2002, 2014
Cabra
羊 (yang)
1931, 1943, 1955, 1967, 1979, 1991, 2003, 2015
Macaco
猴 (hóu)
1932, 1944, 1956, 1968, 1980, 1992, 2004, 2016
Cavalo
鸡 (jī)
1933, 1945, 1957, 1969, 1981, 1993, 2005, 2017
Cão
狗 (gǒu)
1934, 1946, 1958, 1970, 1982, 1994, 2006, 2018
Porco
猪 (zhū)
1935, 1947, 1959, 1971, 1983, 1995, 2007, 2019

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Monolugar de Schumacher em V. Nova de Famalicão

A maior exposição de monolugares alguma vez realizada em Portugal - “Monolugares em Portugal – Passado e Presente” – será inaugurada no próximo sábado, 10 de Fevereiro.
A mostra reunirá alguns dos fórmulas que ajudaram a escrever capítulos da história do automobilismo em território nacional, onde se destaca o Reynard 903 – Volkswagen, gentilmente cedido pela Fundação Casa de Macau, que Michael Schumacher conduziu à vitória no Grande Prémio de Macau de Fórmula 3 de 1990, após uma acérrima disputa com o rival Mika Häkkinen.

A prova de Fórmula 3 desse ano ficaria marcada pelo duelo entre dois futuros campeões da F1: Mika Hakkinen,  finlandês, tinha acabado de conquistar a F3 britânica e Michael Schumacher, alemão, campeão de  F3  no seu país. Na primeira corrida (primeira manga) venceu o finlandês e por isso, Hakkinen precisava de apenas um segundo lugar para garantir a vitória no final da prova. Na segunda manga os dois andaram na frente e na última volta, um choque entre os dois, na recta, entre a curva do hotel Mandarim e a curva do hotel Lisboa, acabaria por ditar a vitória de Shummy.
Sobre essa corrida, considerada a mais bem disputada de sempre, o piloto alemão recordou-a à revista "Macao Magazine" (Setembro de 2013) com uma das suas "melhores memórias": “Macao then was part of a ‘package’ of two very cool races, together with Fuji, so winning both that year clearly gave me a lot of confidence. I would probably not see it as a turning point, but I regard it as one of my best memories.”
A par com este carro emblemático do automobilismo mundial, vão estar expostos cerca de duas dezenas de monolugares, incluindo, entre outros, vários Fórmula Ford, alguns deles ainda em actividade, Fórmula V, Fórmula Renault, Fórmula BMW.
A exposição estará patente ao público, de 10 de Fevereiro a 14 de Março, no Museu do Automóvel de Vila Nova de Famalicão, de terça a sábado, das 10h00 às 12h30 e das 14h30 às 17h30.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Exposição "Macau Património Mundial"

"Macau - Património Mundial' - Catálogo de Exposição patente entre 6 e 28 de Junho de 2009 - Edição da CM de Loures - Galeria Municipal Vieira da Silva - Loures 2009


Índice: O Turismo de Macau em Portugal; O Centro Histórico de Macau; Biombo; Cachimbo; Pote; 'Cachepot' chinês; Ânfora chinesa 'celadon'; Taça; Chapéu; Cabeça de Leão; Traje de Imperador; Traje de Imperatriz; Gaiola; Pipa; Leque; Peneira; Riquexó.





terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Travessa de Sancho Pança e o templo Na Tcha Velho

aqui me referi a D. Quixote e Sancho Pança na toponímia macaense. Mas a propósito desta fotografia da década de 1980 recordo o chamado Templo "Na Tcha Velho" cuja descrição recupero de uma colecção de 10 marcadores de livros emitidos pela "Comissão Territorial de Macau para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses":
Estando na Rua Pedro Nolasco, (4) em frente à Livraria Portuguesa, tem a Travessa das Verdades. Siga-a e do lado direito vai encontrar este pequeno oratório, situado na Travessa de Sancho Pança, como que aberto no meio da rua em interessante disposição, num dos recantos mais típicos da velha Macau, construído em 1850. Ná Ch´á é um ídolo muito popular em Macau pela sua história. Esteve três anos e meio no ventre de sua mãe e nasceu envolvido numa bola encarnada que seu pai cortou para ele sair. Ná C´há era endiabrado criando muitos problemas a seus pais que se viram, a certa altura, perseguidos pelos espíritos maus de quatro dragões. Para se salvar a família, imolou-se a si próprio e a sua alma foi ter à gruta do protector que em sonho pediu à mãe que construísse um templo em sua memória.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

"Portugal: Many Races One Nation"


Portuguese Africa:Racial non-discrimination always cornerstone of Portugal policy overseas

Livro da autoria de António Alberto Andrade editado em Lisboa em 1961. O autor faz o historial da política não-racial do estado português e do desenvolvimento das suas colónias espalhadas pelo mundo, com o recurso a documentação e legislação. Nas inúmeras ilustrações destaque para duas fotografias alusivas a Macau (ver acima).

domingo, 4 de fevereiro de 2018

De "Princess Margaret" a "S.S. Macau"

The Princess Margaret was built in 1931 by Wm. Denny of Dumbarton for the LMS (London, Midland & Scottish Railway) route from Stranraer to Larne. She was 325ft long, 2838 gross tons, and carried 1250 passengers, with 107 first class berths, and 54 second. Her speed was 20.5 knots. She also ran some coastal cruises and trips to Bangor from Larne. In 1939, on the appearance of the new Princess Victoria, she was transferred to the Heysham-Belfast route, returning to Stranraer when the new ship was requisitioned for war service. She was reconditioned after the war, being converted to burn oil in 1952. She passed to CSP (Irish) when the railways were nationalised, and was withdrawn in 1961, when the new Caledonian Princess arrived. She was sold to Shun Tak of Hong Kong, renamed Macau, and used to the port of that name.
A embarcação "Princess Margaret" foi construída em 1931 pela Wm. Denny of Dumbarton para a rota LMS (London, Midland e Scottish Railway), ligando Stranraer a Larne. Com 325 pés de comprimento, pesava 2838 toneladas e transportava 1250 passageiros (com 107 camarotes de primeira classe e 54 na segunda classe. Atingia de velocidade máxima os 20,5 nós. Fez ainda alguns cruzeiros costeiros e viagens para Bangor a partir de Larne. Em 1939, com o surgimento de uma nova embarcação com o mesmo nome, foi transferida para a rota Heysham-Belfast, retornando a Stranraer quando o novo navio foi requisitado para o esforço de guerra. Depois da segunda guerra, em 1952, foi alvo de profundas remodelações incluindo o motor que passou a ser alimentado a óleo (antes era a carvão). Entrou então ao serviço da empresa irlandesa CSP quando as ferrovias foram nacionalizadas.
Em 1961, com a construção da nova embarcação Princess Caledónia, foi retirada da circulação e vendida à empresa Shun Tak, de Hong Kong, (e à STDM) que após alguns trabalhos de transformação, a rebaptizou de "Macau" passando a assegurar (a partir de Novembro de 1964) as ligações entre Hong Kong e Macau (com a duração de duas horas e meia), onde atracava já no novo cais do Porto Exterior (construído em betão), a par dos mais rápidos e também recém chegados, hydrofoil. Operou até à década de 1980, numa altura em que a frota de jetfoil aumentou proporcionando uma oferta mais ampla e viagens muito mais rápidas (ca. de 1 hora).

Dois anúncios de meados da década de 1960:
- no de cima, em inglês, surge o prefixo S.S., que significa "Steaming Ship", ou seja, embarcação a vapor";
- no de baixo, em português, surge o prefixo P/V, provavelmente, "paquete veloz".


sábado, 3 de fevereiro de 2018

Fu Tak Iam, primeiro magnata do jogo

Antes de Stanley Ho deter o monopólio do jogo em Macau Fu Tak Iam foi o primeiro magnata dos casinos. Também conhecido como “capitalista chinês”, o homem que nasceu pobre em Foshan, financiou a construção do Cais 16, no Porto Interior, tendo sido dono do Hotel Central, para onde trouxe o famoso jogo Bacará. A sua família acaba de criar uma fundação em Macau.
A família de Fu Tak Iam, também conhecido como Fu Tak Yung ou Fu Laorong, acaba de criar em Macau uma fundação com o nome daquele que foi o primeiro magnata do jogo no território, até ter perdido o monopólio para Stanley Ho, no início da década de 60.
Esta quarta-feira foi publicado o despacho em Boletim Oficial que determina a criação da fundação. Esta tem como finalidade “o desenvolvimento de acções na área da educação, cultura, saúde e investigação tecnológica”, podendo ainda “desenvolver outras actividades de natureza social e de beneficência”.
A fundação arranca com um capital inicial, em numerário, de dez milhões de patacas, podendo vir a ter, em seu nome, três imóveis que a família detém em Macau, localizados na avenida da República e na Colina da Penha. Tal acontecerá se a Direcção dos Serviços de Finanças autorizar “a isenção do pagamento de imposto de selo devido pela sua eventual transmissão”.
A família de Fu Tak Iam segue assim o exemplo de muitos outros magnatas ao criar uma fundação. O próprio Stanley Ho tem uma entidade em seu nome, tal como Henry Fok, o empresário de Hong Kong que, em 1961, ajudou a fundar a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM), em parceria com o próprio Stanley Ho, Ip Hon (ou Yip Hon) e Terry Ip Tak Lei.
Fu Tak Iam, nascido em 1894 em Nanhai, Foshan, na província de Guangdong, tem uma história semelhante à de tantos empresários ricos: nasceu pobre. “Conta-se que, ainda novo, já mostrava ser empreendedor, tendo começado a cozinhar amendoins na sua aldeia que depois ia vender à cidade”, disse ao HM o jornalista João Botas, autor de vários livros sobre a história de Macau.
Numa altura de maiores dificuldades financeiras, Fu Tak Iam partiu com o pai para Hong Kong, onde trabalhou na indústria naval. “Ainda jovem meteu-se numa briga o que o levou à prisão durante dez meses. Depois de cumprida a sentença regressou a Guangdong. Foi aqui que deu início ao primeiro negócio na área dos penhores. Estava-se no final da década de 1920”, apontou João Botas. A luta pela concessão do jogo em Macau começou no ano de 1930, tendo perdido a aposta para Hou Heng, cujo consórcio incluía vários sócios. Segundo João Botas, “pagavam 1.4 milhões de patacas por ano em troca do exclusivo do jogo” no hotel que, na altura, se chamava President, e que mais tarde viria a chamar-se Hotel Central, localizado na Avenida Almeida Ribeiro.
Hee Cheong detinha o hotel President, que abriu portas em 1928. O seu sócio, Huo Zhi-ting, era amigo de Fu Tak Iam. “Os dois começaram a explorar o jogo em Cantão e Shenzen, em 1935.” Quando o contrato de concessão de jogo atribuído a Hou Heng chegou ao fim, Fu Tak Iam voltou a lançar-se nessa aposta. Para isso, “juntou-se a um dos homens de negócios mais ricos de Macau, Kou Ho-ning, nascido em 1878, com um longo historial na indústria do jogo, nomeadamente do fantan, desde o início do século XX e ainda na área das casas de penhor”.
Os dois amigos decidem então estabelecer a empresa Tai Heng (Tai Hing) que ficaria com o monopólio do jogo, a partir de Janeiro de 1937, mediante o pagamento de 1.8 milhões de patacas. A empresa adquiriu também o hotel President, que em 1937 passar-se-ia a chamar Hotel Central, tendo “acrescentado alguns andares”. “Conta-se que Kou Hou Neng entrou apenas com o dinheiro, deixando a parte operacional do negócio a Fu Tak Iam”, lembrou João Botas.
Segundo informações da Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ), a empresa instalou no Hotel Central um casino, onde foi introduzido o Bacará, jogo que ainda hoje é bastante popular. Ainda de acordo com a DICJ, “a companhia Hou Heng foi considerada inovadora dado as suas introduções a benefício dos serviços fornecidos pela indústria do jogo e pelas respectivas instalações complementares”. Esta “remodelou e decorou, de forma sumptuosa, os seus casinos oferecendo, complementarmente, espectáculos de ópera chinesa bem como comes e bebes gratuitos incluindo frutas, cigarros e aperitivos, e adquirindo a favor de clientes bilhetes de barco”.
O início da II Guerra Mundial e a invasão da China pelos japoneses acabaria por trazer muitas oportunidades ao negócio de Fu Tak Iam, pois Macau era administrado por portugueses e serviu de porto seguro a muitos refugiados chineses. “O Japão invadiu a China e começam a chegar cada vez mais chineses a Macau, aumentando o número de clientes. Estavam criadas as condições para o negócio prosperar”, disse João Botas, que lembrou também o apoio que o magnata do jogo deu nesta fase, com parcerias estabelecidas com a Associação Tong Si Tong e o hospital Kiang Wu.
Também o historiador Camões Tam recorda estes tempos de prosperidade para o empresário, por contraste à miséria e à fome que se viviam nas ruas da pequena Macau. “Quando a maior parte do território chinês estava ocupado pelo exército japonês, muitas pessoas ricas vieram para Macau e acabavam por ir para o casino jogar nos tempos livres, porque não havia muito mais para fazer.”
João Botas lembra, contudo, que há um outro lado da história. “Existem relatos de Fu Tak Iam ter colaborado com os japoneses, tendo sido condenado à morte, no pós-guerra, pelas autoridades da China continental. Uma outra sentença veio a declará-lo inocente. Aspectos típicos dos tempos difíceis vividos em Macau durante a guerra”, referiu o jornalista.
Estamos em 1945 e a II Guerra Mundial chega ao fim. A 10 de Fevereiro, Fu Tak Iam estaria a fumar ópio “como passatempo” junto ao templo de Kun Iam quando foi raptado, tendo sido exigidos nove milhões de patacas pelo resgate.
João Botas conta que há várias versões desta estória, sendo que o resgate acabaria por custar 500 mil patacas. Além disso, Fu Tak Iam perdeu parte da orelha direita. De acordo com Camões Tam, o Governo português interveio no caso, tendo enviado Ho Yin, pai do ex-Chefe do Executivo, Edmund Ho, para lidar como o caso na qualidade de intermediário. “Aí Fu Tak Iam foi libertado, mas claro que perdeu imenso dinheiro”, ironizou Camões Tam.
Na fotobiografia da autoria de Celina Veiga de Oliveira sobre Carlos D’Assumpção, intitulada “Carlos D’Assumpção – Um homem de valor”, há uma referência a este rapto, uma vez que o advogado macaense estava em início de carreira quando apresentou um recurso em 1954 no Tribunal da Relação de Goa contra a condenação de Lei Peng Su, antigo soldado do partido Kuomitang, acusado de raptar Fu Tak Iam.
De acordo com um texto de Celina Veiga de Oliveira, publicado no jornal Ponto Final, “depois de pago um resgate avultado e libertado o empresário, a polícia [de Macau] acabou por deter um antigo soldado do Kuomintang, Lei Peng Su, acusando-o de liderar a quadrilha de sequestradores”. Este foi condenado a 18 anos de prisão, mas Carlos D’Assumpção, com apenas 25 anos, recorreu desta decisão.
Não foi apenas em roletas e fichas de jogo que investiu Fu Tak Iam. Refeito do episódio do rapto, o empresário investiu numa companhia de navegação marítima, a Tak Kee Shipping & Trading Co. Ltd. O seu dinheiro financiou na totalidade o Cais 16, uma estrutura de cor amarela que ainda hoje se situa ao lado do empreendimento Ponte 16, da Sociedade de Jogos de Macau.
Em 1948 o Cais 16 passou a atracar o barco Tai Loy, que à época era “a mais moderna embarcação nas ligações marítimas entre Hong Kong e Macau”, recordou João Botas.
O período áureo de Fu Tak Iam estava, contudo, prestes a chegar ao fim. Em 1950 o empresário mandou alguns dos seus filhos para tomar conta dos seus negócios em Hong Kong, tendo-se mudado para a região vizinha nessa altura, bem como o seu sócio, que morreria em 1955. Apesar da mudança para Hong Kong, Fu Tak Iam perderia a concessão de jogo para Stanley Ho apenas em 1961, quando a STDM se chegou à frente com o pagamento de 3.16 milhões de patacas anuais. Segundo o historiador Camões Tam, Stanley Ho oferecia condições mais vantajosas à Administração portuguesa e era, além disso, casado com uma portuguesa, Clementina Leitão Ho.
“Um assistente demitiu-se da empresa de Fu Tak Iam e convenceu Stanley Ho a cooperar com ele e a concorrer para a obtenção da licença de jogo. E conseguiram.”
Clementina Leitão Ho terá tido um papel importante neste processo, tendo sido discutidas previamente algumas condições para a concessão do monopólio de jogo. “Foram-lhe dados alguns avisos e foram criadas condições, como o estabelecimento de uma rota entre Macau e Hong Kong, a criação de infra-estruturas e a concessão de subsídios para acções de caridade. Stanley Ho oferecia condições mais vantajosas [para a obtenção da licença]”, explicou Camões Tam. O historiador João Guedes tem outra versão: não só Stanley Ho dispunha de outras garantias como a Administração portuguesa estaria descontente com as contrapartidas dadas por Fu Tak Iam. “Ele não vivia cá, vivia em Hong Kong, e por isso é que lhe é retirado o monopólio do jogo, porque ele investia o dinheiro que ganhava aqui em Hong Kong. O Governo português decidiu retirar a concessão e entregá-la a Stanley Ho. Este era casado com uma portuguesa e tinha garantias.”
Segundo a DICJ, a concessão atribuída à companhia Tai Heng chegava ao fim a 31 de Dezembro de 1961, tendo o governador Silvério Marques. Este decidiu aprovar uma lei nesse ano que acabaria por regular a concessão pela via do concurso público. A STDM “acabou por sair vencedora, ficando permitida a explorar, em regime de exclusivo, casinos e a venda das lotarias Pou, Shan e Pacapio”. Em 1960, um ano antes de ver a concessão de jogo ir por água abaixo, Fu Tak Iam morre em Hong Kong com 66 anos de idade, tendo deixado 16 filhos.
Na antiga colónia britânica, a empresa fundada por Fu Tak Iam continuou a prosperar, tendo investido na banca e na hotelaria. O seu filho mais velho estabeleceu, em 1973, o hotel Furama, que tinha 33 andares e que ficou conhecido pelo seu restaurante panorâmico, chamado La Ronda, e que foi demolido em 2001, contou João Botas.
João Guedes recorda-se deste espaço. “Lembro-me de ter ido almoçar muitas vezes ao hotel, um dos melhores em Hong Kong, que tinha um dos melhores restaurantes.” O jornalista, autor de vários livros sobre a história de Macau, lembra que a família de Fu Tak Iam “nunca foi de Macau”, à semelhança dos magnatas que sempre investiram no território. “Os investimentos em Macau são feitos por gente de Hong Kong. O Stanley Ho nunca viveu aqui, no período da II Guerra entre 1939 e 1945 viveu aqui, mas depois mudou-se logo para Hong Kong. Eles devem continuar a ser muito ricos em Hong Kong, e de certeza que continuarão a ter coisas em Macau.”
Hoje em dia a família continua a ter os imóveis já referidos, além de uma antiga casa, localizada junto à residência do cônsul de Portugal em Macau, que foi vendida a um cidadão de Hong Kong. Aí existiram “duas pedras gravadas em 1952 em memória dos seus pais”, apontou João Botas. O ano passado* o neto de Fu Tak Iam, Adrian Fu, criou uma fundação com objectivos semelhantes em Hong Kong.
Stanley Ho é amplamente conhecido por ser o grande impulsionador da economia de Macau, mas pouco se sabe sobre aquele que terá sido o primeiro grande empresários dos casinos no território.
“Só agora é que se começam a fazer alguns estudos sobre isso, de resto não existe nada sobre essa época do sector do jogo. Em português não se escreveu nada sobre Fu Tak Iam, de certeza absoluta”, disse João Guedes.
O historiador Camões Tam considera que “há quatro reis dos casinos em Macau”, tendo Fu Tak Iam sido o primeiro. E a sua importância mede-se não apenas pelas patacas que investiu na luta pela concessão. “Não sabiam apenas como gerir os casinos mas tinham conhecimentos de como desenvolver a economia e a cidade. Antes de ter os primeiros casinos, nos anos 30, Macau era uma cidade muito pequena, mas depois da gestão [destes empresários], Macau tornou-se uma verdadeira cidade do jogo, com uma indústria propriamente dita, e tornou-se mais próspera. Foi uma verdadeira reviravolta na história de Macau.”
A condecoração portuguesa
O “capitalista chinês” chegou a ser condecorado pelo Governo português com o grau de Oficial da Ordem Militar de Cristo “aquando da visita a Macau do Ministro do Ultramar no verão de 1952”, disse João Botas. A condecoração foi atribuída pelo comandante Manuel Maria Sarmento Rodrigues.
Artigo da autoria de Andreia Silva publicado no Hoje Macau de 2.2.2018
Nota do autor deste blogue:* a Fundação foi criada em 2007.